sábado, 27 de dezembro de 2008

Essa noite...

Queria que chovesse
Queria não ter que me ouvir
Queria não ter que pensar sobre mim...
Ou nas minhas piadas que ninguém entende
Queria um sinal de persistência e coragem para virar mais uma página
Queria não querer mais uma vez
Queria querer o que é bom
Queria correr do pecado
Queria ser um santo ao pé do altar
Queria ser esperto e não inteligente
Queria não ter que acordar
Queria que o tempo passasse
Ou parasse
Queria ter mais tempo
Queria ir embora
Queria chorar
Queria morrer outra vez
Queria ressuscitar
Queria gemer
Queria gritar
Queria desistir
Queria
Queria
Queria mais
Queria menos
Não queria mais nada
Desisti de querer
...


Olá! Meu nome é...


Medo!
Sou especialista em pisar em ovos e em recuar na existência dos sinais de fogo.
Sempre estive aqui, de olhos abertos e aguardando um sinal para fugir da dor.
Meu companheiro mais presente é a solidão.
Sempre está comigo nos lugares que eu vou e no álcool que bebo.
Meu melhor amigo é o sono. Faz-me esquecer de tudo que a solidão me propicia.
E o meu inimigo?
Adivinhem se forem capazes!
É o triste amor!
Ele me fez chorar, me fez sofrer, me fez desistir.
O problema do amor é que ele também era solitário, era meu e de mais ninguém.
Era cego na luz e enxergava no escuro da minha sobriedade.
Foi aí que aprendi a desistir, foi aí que aprendi a temer...
Foi aí que mudei de nome...
Antes eu era Esperança.
Via-te como um pedaço de carne que sorria
Via-te como motivo de uma alegria
Via-te como uma coisa qualquer
Via-te como causa de um mal-me-quer

Fechei os olhos para não ter que te ver
Tapei os ouvidos para não ter que te ouvir
Calei para não ter que te falar
Abri o coração para você partir

Apenas sei que um dia a gente vai se encontrar
Nesse dia notará que não há culpa ou culpados
Saberá perdoar...

E eu ficarei aqui apenas
Não vou esperar
Não vou partir

Guarde teu sorriso na alma
E a dor no coração
Até que as coisas resolvam mudar

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Foi tarde!


Ele era um santo, como os acólitos da igreja de São Pio X. Nem gostava de álcool, nem usava as drogas que seus amigos teimavam em consumir. Gostava de fazer o bem ao próximo, tinha um ar de sorriso estampado na cara, semelhante às propagandas de creme dental. Poderia ser eu se não fosse ele. O detalhe é que dificilmente eu trabalharia para o meu próprio mal, minha potência de existir não permitiria que eu fizesse algo de nocivo contra minha pessoa. Mas ele, ele não teria essa sensibilidade na pele, ele seria incapaz de pensar no bem do outro antes do dele. Na verdade ele era um qualquer. Cabelos grisalhos, cinqüentão, aparentemente um bom partido... Muitas qualidades de longe, mas de perto um frustrado que faria questão de tornar a minha vida frustrante. Um ciumento, possessivo e desconfiado, só porque a minha pele ainda era jovem, corada e cheia de viço. Lamentaria ter que dizer que, mesmo o amando, tinha que partir. Seria incapaz de não dizer adeus se sentisse necessidades para tal. Minha alma e minha boca não hesitariam em proferir tais palavras. Depois de poucos meses, teria eu me cansado de tal rotina. Eram cinco da manhã e ele não havia retornado, nem telefonado... Eu havia perdido a confiança, sabia que ele gostava de estar ao meu lado, mas o seu respeito estava foragido, escapando pelos seus poros no suor fruto do sexo pago na periferia da cidade, do lado de algumas vagabundas, possivelmente e potencialmente infectadas por uma DST. Ele era tão sujo quanto à lama e eu fui adquirindo um nojo crescente ao seu lado. Eu sei que teria que por um fim nessa situação sem saída, sem esperança. Ainda bem que não tínhamos filhos, além de tudo, desconfiava que fosse estéreo. “Meu Deus!” Eu pensava: “aonde vim parar!” Acordei cedo no outro dia. Enxerguei e me convenci de que não valeria à pena nem mesmo uma despedida ou uma explicação. Ele havia adormecido despido na banheira, o nojo só aumentou. “Que situação!” Comecei a ter pena de mim por tamanha vergonha, nem sei por que tive essa sensação, na verdade queria que ele se danasse. Ele acabou com a minha esperança, depois de tantas tentativas de felicidade, eu o via como a última saída! Não que eu não tivesse a capacidade de encontrar alguém melhor, mas eu já estava cansada de supor que o bem pudesse vir do coração de algum homem. Então fui embora. Simplesmente, saí. Foi melhor assim, não vou sofrer por isso. Ele era tão pequeno e medíocre e eu estava me contaminado com seus vícios morais por suportar tudo. Chegou o momento que eu deixei de sofre e me questionar sobre o bem que um coração possa possuir. Não perco as esperanças totalmente, pois o meu coração ainda pôde, depois de tudo, permanecer em paz e ciente de que eu sou o meu próprio bem.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Brincando com o tempo...


Pergunto-me às vezes:
“Será que o universo é um grande relógio que um Deus relojoeiro ajusta, troca os pinos e ignições?”
Fico até pensando:
“Será que se em vez de beber água eu tomar refrigerante mudarei alguma coisa no futuro?”
Como se assim, a mínima coisa que eu fizesse, tivesse o poder de mudar substancialmente meu futuro.
Observei-me então brigando com o tempo.
Querendo que ele corra!
Querendo que ele volte!
Querendo que ele pare!
Querendo sem querer!
Querendo manipulá-lo ao meu favor...
Fui capaz de esquecer o calendário para me perder nos dias.
Deixei todos os relógios pararem.
Comecei a dormir tarde para desregular o meu próprio relógio.
Não como na hora certa.
Acordo na hora errada.
Continuo a me perguntar...
Quantas décadas faltam para a maturidade?
Quantos anos faltam para eu ser gente?
Quantos meses faltam para o carnaval?
Quantas semanas faltam para o natal?
Quantos dias faltam para o final da semana?
Quantas horas faltam para sair o resultado?
Quantos minutos faltam para a hora do jantar?
Quantos segundos faltam para eu relembrar de você?
E aí eu continuo, brigando e brincando com o tempo
Pensando que ele briga e brinca comigo também
Todos nós desejamos um bom futuro, bons momentos...
Mas será que temos consciência de que cada atitude prepara para esse caminho?
Mantenho-me com os olhos bem abertos e querendo sempre poder estar sóbria para notar esses avisos, às vezes, tão agudamente, que fujo para esquecer tudo e deixar as coisas tomarem o seu próprio rumo.
Mas não dá!
Seria uma negligencia da minha parte...
Mas inocência minha pensar isso, mesmo sabendo que tenho o poder de fazer meu tempo, não mando no tempo e ele parece ter vida própria.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Astros do meu céu: O sol, A lua e Você


Choveu aqui essa noite
Nem era a hora de lembrar ou de esquecer de nada
Era hora apenas de fechar os olhos e sentir o cheiro da chuva
Era o momento de ouvir o grito ensurdecedor do silêncio

Com poucos minutos a chuva passou
O sono veio...
E virou sonho
Acabei sonhando com o irreal

O sol nasceu
Eu acordei
O sono teimou em me perseguir
E fui te encontrar

O sol se pôs
Cheguei perto de ti
O sono que eu tinha não foi dormido, mas nem existe mais...
E as mãos se encontraram outra vez

A lua veio azul de tão branca
Com suas bordas coloridas de luz
De tão grande parecia perto
E perto permaneci de você

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Corro




Por ruas

Por avenidas

Pelo tempo

Pela vida

Corro de mim

Corro de você

Corro em ti...

Perco-me nos teus segredos

Acho-me no teu riso

Acho-me em você


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Uma dor...


Hoje acordei já cansada.
A quantidade de tarefas e prazos para cumprir me espremia como uma laranja.
Uma época totalmente turbulenta e sem brechas para respirar.
Sentia-me como se estivesse com o nariz congestionado e febril.
Naquela situação que te faz desejar não necessitar de ar para sobreviver.
Continuei correndo ao longo do dia e de repente tive que parar tudo.
Vi uma mulher e uma criança, pedindo esmolas na rua.

Mesmo, esse fato, sendo comum e demasiadamente velho, não tive como negligenciar e fingir que nada acontecia.
Aquelas pessoas traziam no seu semblante e em outros lugares ocultos, as dores da miséria.
Nessa hora senti-me totalmente impotente.
Por mais que pudesse ajudar, o máximo que eu poderia fazer era amenizar, maquiar aquela dor por um curto momento.
Mas e depois?
A incerteza do depois, agregada a toda aquela miséria me tocaram.
Logo eu, que como qualquer mortal tem seus problemas, e que às vezes se desespera com uma não solução, com uma fome ou sede que será sanada dentre poucos instantes, até mesmo com uma unha quebrada...
Pensei: “E depois?”
Como acordar sem saber se irá tomar um café e se alimentar durante o dia?
Imagina isso em um dia, em dois, em uma semana, em uma quinzena, eu um mês, em um ano...
Uma vida toda na miséria?
Sei que cada um tem a sua vida e seus problemas.
Já ouvi dizer que cada um carrega a cruz que pode suportar.
Pergunto-me se tudo isso é justo mesmo já sabendo da resposta.
Pergunto-me por apenas não entender.
Pergunto-me por não saber o que fazer.
Pergunto-me demais e não faço nada.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sabor de Cassis


Inventamos para nós a tarde perfeita
Marcada pela brisa do mar
D’onde pudéssemos ter a melhor vista da cidade
D’onde o vento estivesse a tocar a nossa face ao primeiro beijo
Numa melodia composta de risos, amigos e céu estrelado
Talvez algumas piadas para rirmos...

E a noite chegaria...
Uma rosa coloriria o meu rosto de vermelho
E um tropeço para lembrar que tudo é real
Existiria uma pitada de timidez para derramar encanto
E um cheiro que depois teimaria em ficar em mim...
E um gosto leve de cassis ficaria na minha boca
Cabelos que segurariam a minha mão de modo quase involuntário
Violinos que tocariam para nós
E no fim...

Uma despedida que se faria em “Até logo!”

sábado, 8 de novembro de 2008

Sem Nenhuma Resposta


Você foi aquela pessoa que me ensinou, a saber, apreciar um bom monólogo.
Com você aprendi a falar sem ter que aguardar por nenhuma resposta.
Como uma criança que fala com seu amigo imaginário.
(A criança pelo menos tem uma imaginação fantástica para poder devanear sobre as respostas que não vem e se contentar com elas.)
Eu, diferente da criança, tive que me acostumar com essa condição.
Deixar para trás algumas brigas, alguns desentendimentos, algumas boas idéias ou felicidades.
Fazemos escolhas, tudo bem.
Continuar falando é uma escolha minha.
Continuar em silêncio é uma escolha tua.
Eu apenas perco meu tempo e minha saliva.
E você nunca saberá o que perdeu.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Sem Ação não Há Reação


Ele nem imaginava que eu acompanhava seus passos, que sabia tudo ou quase tudo da sua rotina, de suas horas...
Poderia ser capaz de lembrá-lo de seus afazeres, mesmo sem que ao menos tivéssemos trocado palavras uma vez só fosse.
Eu sabia de seus gostos, de suas preferências e provavelmente de seus pensamentos.
Eu o observava de longe.
Mas me faltava dar vida aquele espectro nebuloso que eu inventei para mim.
Ele existia factualmente, mas a sua realidade permanecia um segredo que eu não saberia se um dia teria a chance de desvelar.
Faltava-me a memória de seu cheiro, de seu calor e do seu gosto na minha boca.
Aquilo que seria capaz de torná-lo real para mim.
Eu o desejava silenciosamente e não me era possível falar desse sentimento.
Parecia existir uma barreira que me castrava da ação.
Por que mais que esse sentimento fosse para mim importante, ele acharia uma grande idiotice, pois eu sabia o quanto ele acreditava na sua capacidade de manter a distância das paixões.
Os amores eram perca de tempo, e eu compartilhando o meu sentimento com ele não obteria nenhum êxito, pois era quase certo que eu teria uma grande frustração.
O tempo passou e a coragem nunca veio e ele voltou para a sua cidade, no extremo sul do país.
Meses depois, encontrei um amigo que me entregou uma carta com as seguintes palavras:


“Fui embora por não suportar o seu silêncio, por não ter enxergado em você nenhuma possibilidade de me aproximar.
Sempre te observava discretamente, mas infelizmente o tempo passou e vou viver minha vida.
Gostaria de poder ter te conhecido naquele dia que deixei um bilhete pedindo o seu telefone ou em outra oportunidade, no baile a fantasia, onde eu pedi a sua mão para dançar e você não pôde por estar com dores nos calcanhares.
Tinha algumas esperanças, mas vejo que eu não seria a sua altura.
Quem sabe...
Até um dia!
Adeus!”

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Uma Banalidade

Chegava a ser patológico o modo freqüente que ele trocava de mulher.
Trocava de mulher como quem trocava a marca do cigarro...
Antes de chegar ao filtro, jogava ao chão e dava aquela pisadinha.
Deixava lá mesmo, no meio da rua...
E quando batia a consciência ambiental, tinha o cuidado de colocar na lixeira ou dar descarga, se estivesse na casa de alguém.
Ele trocava de marca de cigarro como quem trocava de mulher.
Fumou de tudo, do mais barato ao mais caro, dos caseiros aos internacionais.
O certo é que ele fumava por fumar, era resistente a dependência, provavelmente alguma alergia o impedia do vício.
Os cigarros, realmente, eram para ele intragáveis.
Intragáveis como as mulheres que ele teve, eram todas diferentes e ao mesmo tempo iguais.
Diferentes porque tinham nomes diferentes e iguais porque tinham a mesma aparência.
Todas elas tinham o mesmo cabelo, a mesma cor, o mesmo sorriso, quase a mesma idade...
Mas a verdade é que ele não sabia amar.
E fumar...
Fumar já era outra história.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Um pouco diferentes


Eu queria amor e ele sexo
Eu queria alguém especial e ele quantidade
Eu gostava do quarto e ele da garagem
Eu queria ficar em casa e ele sair todas as noites
Eu queria suco e ele cerveja
Eu queria flores e ele cigarros
Eu queria uma casa e ele carros
Eu queria segurança e ele mudança
Eu queria beijos e ele tinha desejos
Eu tinha projeções e ele canções
Eu sonhava e ele não dormia
Eu me achava gorda e ele galã
Eu lia romance e ele ficção científica
Eu escrevia poesias e ele as contas do mês
Eu gostava de réveillon e ele de natal
Eu assistia novela e ele ia ao futebol
Eu gostava de crianças e ele de animais
Eu era de peixes e ele era de leão
Mas o que nos unia era a paixão
Eu não o amava, mas ele começou a pensar sobre amor
Resolvi ir embora e ele passou a sentir a dor

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sem tantas cobranças


Deixe tudo para lá por uns instantes
Não se preocupe tanto
Ande descalço e depois lave os pés
Corra na rua
Depois tome um banho
Assanhe o cabelo
Roube um beijo
Se arrisque a viver

Sonhe acordado
Conte mentiras sinceras
Fale que ama para quem você ama
Seja autentico e fiel a sua natureza
Não agrade a ninguém sem agradar antes a você próprio
Beba gelado vez ou outra
Coma chocolates
Não vá à balança com freqüência

Tome banho de chuva
Durma tarde em um dia feliz para que ele dure mais
Se dê ao luxo de quebrar algumas regras
Mande uma carta
Jogue fora coisas do passado
Limpe o quarto das coisas iguais
Finja uma febre para não ir à escola
E viva a vida a cada hora

Seja você e mude todo dia
Faça um favor, uma caridade
Se apaixone
Brinque
Cante
Dance
Lute
Ame

De quem é o erro?


Eu queria ter podido sempre fazer a coisa certa, pelo menos o que eu achava que era.
Eu queria nunca poder errar, e caso errasse, ter uma segunda oportunidade de concertar as coisas...
Por menores que elas fossem...
Eu queria poder ser ouvido e explicar meus motivos, mesmo que você não os entendesse.
Eu não precisava ser desculpado, mas precisaria que ao menos pudesse ouvir e dar sua opinião.
Das vezes que falei coisas que não gostou ou não quis entender...
Eram apenas as minhas verdades, era eu me mostrando para você, me dando a chance de ser eu mesmo.
Talvez você nem tenha pensado nessa possibilidade, você simplesmente engoliu as suas impressões e tomou as suas escolhas para você e não as dividiu.
A verdade é que eu nunca precisei que o tempo passasse demais para que tudo esfriasse ou doesse menos.
A dor era uma conseqüência e senti-la logo é melhor do que deixá-la em latência para eclodir depois, quando estivéssemos na calmaria da noite ou em outra situação mais confortante.
Não preciso de amortecedores!
Eu poderia até aparentar fragilidade, mas você não me conhece o suficiente, para notar que não sou assim.
Por isso não te culpo totalmente, apenas culpo por não ter ouvido o que eu tinha para dizer.
A verdade é que aquele tempo, que você achava que era oportuno, está apagando as suas impressões mais coloridas...

Apagando as suas lembranças em mim.
Então não se surpreenda se um dia, quando conversarmos sobre nós, eu ser indiferente ou frio.
É que você não pôde ver quem eu era e agora não verá mais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

À meia noite...


O ato de escrever, às vezes, me soa como uma confissão.
Como se o que fosse escrito fizesse parte daquilo que há de mais íntimo e que você deveria guardar em seu espírito.
Escrever é desvelar-se para o mundo e para os desconhecidos, é a oportunidade de desnudar a alma e mostrar alguns segredos e astúcias.
É a chance que se tem de se tornar “eterno” por uns instantes ou para a posteridade.
É o momento da critica, do elogio, da verdade na dissimulação e do jogo.
Aquele que escreve, envolve o seu leitor em um jogo onde as peças são eles próprios, que passivos, apenas esperam o desfecho da estória, o “felizes para sempre”.
Escrever é ser além das aparências!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

De volta a 70

Ele estava sentado no sofá de sua casa, lendo os jornais do dia e assistindo TV e sua esposa estava na cozinha preparando o café da manhã.
Ele olhou bem para ela e viu como o tempo passou.
Observou que os traços de Simone não eram mais os mesmo como na década de 70, quando eles se conheceram.
Ela já estava muito marcada pelo tempo assim como ele também estava.
Não esperou o café e saiu apressado sem comunicar a sua Simone.
Ele sentiu tanta saudade do seu passado que não hesitou em pegar as chaves do carro e ir visitar o bairro em que se conheceram como numa tentativa de reviver, como se fosse possível respirar o mesmo ar da época.
O bairro não era mais o mesmo, não existia mais lá os moradores da época, nem mais os estabelecimentos, a sorveteria, a loja de doces, a padaria que ele comprava sonhos recheados, nem o barbeiro que costumava compor o visual da época, nem a loja de discos.
Mas o fato de estar lá fez com que tudo se tornasse mais fresco em sua memória, as lembranças do passado voltaram a viver.
Ele andou pelas ruas e sentiu o cheiro daquela época de um modo tão vivo que começou a enxergar a mesma áurea de antes, as pessoas, as luzes, as moças e a sua Simone.
Simone costumava sentar nas escadas da sua casa no fim da tarde, ela sempre esperava essa hora do dia para vê-lo.
Ele seria capaz de tudo por ela, passaria uma noite inteira conversando sobre qualquer bobagem que lhe viesse à mente.
Ele se lembrou da trilha sonora que embalava o seu romance. Nessa época ele havia prometido que para sempre iria cantar aquela música para ela.
Todo aquele ambiente mexeu tanto com ele que com a mesma pressa que ele saiu de casa ele voltou.
Pegou as chaves do carro no bolso e dirigiu rápido para casa, chegando lá Simone não entendeu o porquê da saída repentina de seu esposo.
Ele simplesmente abriu a porta de casa, se aproximou de Simone, enlaçou a sua cintura com o braço e com a outra mão tomou a mão dela.
Ele encostou a boca, docemente, na orelha de Simone e com os olhos cheios de lágrimas cantou a canção que tanto embalou os seus sonhos de vida.
Ela igualmente emocionada fechou os olhos e de repente parecia ter voltado a ter 18 anos.
Toda a sua sala mudou de cor e de cheiro, e eles voltaram a ser o que eram na década de 70.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tudo Novo de Novo

Composição: Moska

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim
Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou
E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Uma relação sobre a paixão e a doença


Pude, certa vez, desvelar uma constatação que não me era evidente.
Na verdade não existe nada na realidade que seja evidente por si próprio, foram necessários séculos para o homem observar e constatar aquilo que muitas vezes acredita ser “evidente”, por exemplo, como as relações de causa e efeito, se amanheceu é porque a pouco era noite (no tocante aos fenômenos da natureza) ou que um machucado dói (no que se refere a sua própria natureza humana). Mas a defesa do empirismo em detrimento ao sensismo ou outras análises não é o meu objetivo nesse momento.
O fato é que no começo do curso ouvi meus colegas conversarem sobre o termo “pathos”, (um termo até engraçado por ser semalhante a palavra pato no plural, mas para quem ouviu a conversa pela metade poderia acreditar que o assunto giraria em torno dos anatídeos).
Eu fiquei curiosa para saber do que se tratava, eles me responderam que “pathos” é uma palavra de origem grega e significaria paixão, excesso, catástrofe, passividade, sofrimento e assujeitamento.
Nesse momento pensei: “Mais uma palavra para compor o meu cabedal linguístico!”
Com pouco tempo pensei: “Mas “pathos” lembra a palavra “patologia”!”
Tenho dúvidas se a minha analise foi evidente, mas não pude deixar de relacionar o que me parecia “evidente”.
Acabei sendo induzida a relacionar paixão e doença, e inevitávelmente paixão como uma doença.
Pensei: “Se estar apaixonado é estar doente, logo isso não é bom!”
Mas a questão não se trata simplesmente de um relação maniqueísta entre o bem e o mal.
A questão é como nós nos comportamos em estado de paixão. Não faço a mínima idéia de como se deve comportar, até porque é uma questão totalmente pessoal e subjetiva.
O importante é consiliar, buscar um meio termo.
É impossível não se apaixonar, não ser afetado por algo ou alguém, me desculpem aqueles que dizem que nunca se apaixonaram, mas eu não acredito.
Sobre a questão da passividade, é inevitável não ser passivo em algum momento. Quem está apaixonado é porque foi afetado por algum objeto, o afetado sofre o estímulo externo e logose encontra passivo.
É até redundante falar sobre, mas o objetivo é deixar claro que a passividade do individuo é real.
Existem pessoas capazes de deliberar em algum momento essa escolha, de se deixar afetar. No entanto, isso não é nem bom e nem ruim “a priori”, a questão é de como tudo vai transcorrer e não depende exclusivamente de um lado da relação.
É certo que existe muitas coisas a serem acrescentadas nas nossas concepções, mas no momento quero apenas abrir margem a reflexão individual.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Desencontro


Como entender duas retas paralelas era a questão!
Retas paralelas são iguais...
Têm uma origem e um fim no infinito...
Mas nunca se encontram...
Nunca se cruzam...
Nunca formam laço...

Será que um dia ele terá aquele abraço?

Incrível ele ter se identificado assim com alguém
Mesmo vendo nela o espelho de suas ações
Mesmo assim, as ações dela eram contrárias as suas
Que em vez de aproximá-los os distanciava
A ponto de deixar nele só a lembrança
Mas que vida sem esperança...

E a saudade de tê-la se transforma na dor da ausência
Que passava a proucurar sem achar

No fim de tudo ele saberia...

Passar por isso era a sua penitência

Verdades e Certezas


Os que sonham buscam verdades
Os que estão acordados buscam certezas
De modo que não sei se sonho ou se estou acordada
Mas de vez em quando sei que me perco na madrugada

Sonhando sei que também posso velar as verdades
E brincar com os mitos que faço
Acordada às vezes tenho a certeza
Mas será que a vida é só tristeza?

Depois de tanto pensar descubro
Que é inútil ter alguma certeza
E se a verdade dói, ela é inútil também.

Viver sonhando talvez não seja bom
Mas viver de mentiras é pior
Viver acordada também cansa
Mas buscar a felicidade é melhor

Aquele menino


Recordo-me muito bem daquele menino
Tão puro e inocente
Dono de um sorriso tão contente
Tão doce que não caberia em um sorriso só
Eu sei que tive de ir e não tive tempo de me despedir
Ficarei com saudade daquelas coisas que ele não pôde me dizer por falta de tempo
Vi nele uma beleza rara, própria da sua idade
Vê-lo fingindo dormir foi engraçado
Mas na hora da minha partida o seu sono era real
Não sei se um dia poderei encontrá-lo novamente
Só sei que se não fossem algumas fagulhas a nossa amizade perduraria
Desejo que ele cresça bem
Sei que em breve ele será um grande homem
Pois já é um grande menino
E que muito tem a ensinar

Homem sem nome


Ele sabia que deveria fazer alguma coisa, sentia isso a todo instante a perturbar sua mente sempre cheia de coisa.
Ele sabia que não tinha a bela voz do taurino ou a elasticidade de um ginasta.
Não sabia tocar violão, desenhar ou contar piadas.
Não tinha para quem cozinhar ou contar suas estórias de vida ou de sonhos.
Não tinha dotes artísticos ou coisa parecida.
Sua vida era monótona como o crescimento da grama do meio fio.
Mas ele sabia que pensava e escreveu.
Mesmo que ninguém fosse ler, mesmo que fosse bobagem, mesmo que fossem apenas as suas lembranças; de desventuras ou de embriaguês nos bares da periferia.
Qualquer coisa que relembrava era capaz de se tornar algo relevante naquela tarde solitária e quente de verão de um lugar sem estações regulares.
Tudo parecia tão calmo do lado de fora da porta de sua casa, mas dentro de seu corpo havia um constante movimento: eram os hormônios, a fome, o desejo de liberdade, um pouco de álcool e saudades de um passado bem distante. Tudo misturado e indefinido.
À tarde daquele dia passou lenta como um dia em Plutão, uma tarde solitária que ele compartilhou com o tédio de ser quem ele era.
Ele escreveu porque se apenas pensasse poderia esquecer suas lembranças.
Resolveu escrever pensando que um dia alguém poderia dialogar com o seu pensamento, mesmo que ele não existisse mais para dizer o que uma frase solta significaria.