quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Uma Banalidade

Chegava a ser patológico o modo freqüente que ele trocava de mulher.
Trocava de mulher como quem trocava a marca do cigarro...
Antes de chegar ao filtro, jogava ao chão e dava aquela pisadinha.
Deixava lá mesmo, no meio da rua...
E quando batia a consciência ambiental, tinha o cuidado de colocar na lixeira ou dar descarga, se estivesse na casa de alguém.
Ele trocava de marca de cigarro como quem trocava de mulher.
Fumou de tudo, do mais barato ao mais caro, dos caseiros aos internacionais.
O certo é que ele fumava por fumar, era resistente a dependência, provavelmente alguma alergia o impedia do vício.
Os cigarros, realmente, eram para ele intragáveis.
Intragáveis como as mulheres que ele teve, eram todas diferentes e ao mesmo tempo iguais.
Diferentes porque tinham nomes diferentes e iguais porque tinham a mesma aparência.
Todas elas tinham o mesmo cabelo, a mesma cor, o mesmo sorriso, quase a mesma idade...
Mas a verdade é que ele não sabia amar.
E fumar...
Fumar já era outra história.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Um pouco diferentes


Eu queria amor e ele sexo
Eu queria alguém especial e ele quantidade
Eu gostava do quarto e ele da garagem
Eu queria ficar em casa e ele sair todas as noites
Eu queria suco e ele cerveja
Eu queria flores e ele cigarros
Eu queria uma casa e ele carros
Eu queria segurança e ele mudança
Eu queria beijos e ele tinha desejos
Eu tinha projeções e ele canções
Eu sonhava e ele não dormia
Eu me achava gorda e ele galã
Eu lia romance e ele ficção científica
Eu escrevia poesias e ele as contas do mês
Eu gostava de réveillon e ele de natal
Eu assistia novela e ele ia ao futebol
Eu gostava de crianças e ele de animais
Eu era de peixes e ele era de leão
Mas o que nos unia era a paixão
Eu não o amava, mas ele começou a pensar sobre amor
Resolvi ir embora e ele passou a sentir a dor

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sem tantas cobranças


Deixe tudo para lá por uns instantes
Não se preocupe tanto
Ande descalço e depois lave os pés
Corra na rua
Depois tome um banho
Assanhe o cabelo
Roube um beijo
Se arrisque a viver

Sonhe acordado
Conte mentiras sinceras
Fale que ama para quem você ama
Seja autentico e fiel a sua natureza
Não agrade a ninguém sem agradar antes a você próprio
Beba gelado vez ou outra
Coma chocolates
Não vá à balança com freqüência

Tome banho de chuva
Durma tarde em um dia feliz para que ele dure mais
Se dê ao luxo de quebrar algumas regras
Mande uma carta
Jogue fora coisas do passado
Limpe o quarto das coisas iguais
Finja uma febre para não ir à escola
E viva a vida a cada hora

Seja você e mude todo dia
Faça um favor, uma caridade
Se apaixone
Brinque
Cante
Dance
Lute
Ame

De quem é o erro?


Eu queria ter podido sempre fazer a coisa certa, pelo menos o que eu achava que era.
Eu queria nunca poder errar, e caso errasse, ter uma segunda oportunidade de concertar as coisas...
Por menores que elas fossem...
Eu queria poder ser ouvido e explicar meus motivos, mesmo que você não os entendesse.
Eu não precisava ser desculpado, mas precisaria que ao menos pudesse ouvir e dar sua opinião.
Das vezes que falei coisas que não gostou ou não quis entender...
Eram apenas as minhas verdades, era eu me mostrando para você, me dando a chance de ser eu mesmo.
Talvez você nem tenha pensado nessa possibilidade, você simplesmente engoliu as suas impressões e tomou as suas escolhas para você e não as dividiu.
A verdade é que eu nunca precisei que o tempo passasse demais para que tudo esfriasse ou doesse menos.
A dor era uma conseqüência e senti-la logo é melhor do que deixá-la em latência para eclodir depois, quando estivéssemos na calmaria da noite ou em outra situação mais confortante.
Não preciso de amortecedores!
Eu poderia até aparentar fragilidade, mas você não me conhece o suficiente, para notar que não sou assim.
Por isso não te culpo totalmente, apenas culpo por não ter ouvido o que eu tinha para dizer.
A verdade é que aquele tempo, que você achava que era oportuno, está apagando as suas impressões mais coloridas...

Apagando as suas lembranças em mim.
Então não se surpreenda se um dia, quando conversarmos sobre nós, eu ser indiferente ou frio.
É que você não pôde ver quem eu era e agora não verá mais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

À meia noite...


O ato de escrever, às vezes, me soa como uma confissão.
Como se o que fosse escrito fizesse parte daquilo que há de mais íntimo e que você deveria guardar em seu espírito.
Escrever é desvelar-se para o mundo e para os desconhecidos, é a oportunidade de desnudar a alma e mostrar alguns segredos e astúcias.
É a chance que se tem de se tornar “eterno” por uns instantes ou para a posteridade.
É o momento da critica, do elogio, da verdade na dissimulação e do jogo.
Aquele que escreve, envolve o seu leitor em um jogo onde as peças são eles próprios, que passivos, apenas esperam o desfecho da estória, o “felizes para sempre”.
Escrever é ser além das aparências!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

De volta a 70

Ele estava sentado no sofá de sua casa, lendo os jornais do dia e assistindo TV e sua esposa estava na cozinha preparando o café da manhã.
Ele olhou bem para ela e viu como o tempo passou.
Observou que os traços de Simone não eram mais os mesmo como na década de 70, quando eles se conheceram.
Ela já estava muito marcada pelo tempo assim como ele também estava.
Não esperou o café e saiu apressado sem comunicar a sua Simone.
Ele sentiu tanta saudade do seu passado que não hesitou em pegar as chaves do carro e ir visitar o bairro em que se conheceram como numa tentativa de reviver, como se fosse possível respirar o mesmo ar da época.
O bairro não era mais o mesmo, não existia mais lá os moradores da época, nem mais os estabelecimentos, a sorveteria, a loja de doces, a padaria que ele comprava sonhos recheados, nem o barbeiro que costumava compor o visual da época, nem a loja de discos.
Mas o fato de estar lá fez com que tudo se tornasse mais fresco em sua memória, as lembranças do passado voltaram a viver.
Ele andou pelas ruas e sentiu o cheiro daquela época de um modo tão vivo que começou a enxergar a mesma áurea de antes, as pessoas, as luzes, as moças e a sua Simone.
Simone costumava sentar nas escadas da sua casa no fim da tarde, ela sempre esperava essa hora do dia para vê-lo.
Ele seria capaz de tudo por ela, passaria uma noite inteira conversando sobre qualquer bobagem que lhe viesse à mente.
Ele se lembrou da trilha sonora que embalava o seu romance. Nessa época ele havia prometido que para sempre iria cantar aquela música para ela.
Todo aquele ambiente mexeu tanto com ele que com a mesma pressa que ele saiu de casa ele voltou.
Pegou as chaves do carro no bolso e dirigiu rápido para casa, chegando lá Simone não entendeu o porquê da saída repentina de seu esposo.
Ele simplesmente abriu a porta de casa, se aproximou de Simone, enlaçou a sua cintura com o braço e com a outra mão tomou a mão dela.
Ele encostou a boca, docemente, na orelha de Simone e com os olhos cheios de lágrimas cantou a canção que tanto embalou os seus sonhos de vida.
Ela igualmente emocionada fechou os olhos e de repente parecia ter voltado a ter 18 anos.
Toda a sua sala mudou de cor e de cheiro, e eles voltaram a ser o que eram na década de 70.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tudo Novo de Novo

Composição: Moska

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim
Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou
E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Uma relação sobre a paixão e a doença


Pude, certa vez, desvelar uma constatação que não me era evidente.
Na verdade não existe nada na realidade que seja evidente por si próprio, foram necessários séculos para o homem observar e constatar aquilo que muitas vezes acredita ser “evidente”, por exemplo, como as relações de causa e efeito, se amanheceu é porque a pouco era noite (no tocante aos fenômenos da natureza) ou que um machucado dói (no que se refere a sua própria natureza humana). Mas a defesa do empirismo em detrimento ao sensismo ou outras análises não é o meu objetivo nesse momento.
O fato é que no começo do curso ouvi meus colegas conversarem sobre o termo “pathos”, (um termo até engraçado por ser semalhante a palavra pato no plural, mas para quem ouviu a conversa pela metade poderia acreditar que o assunto giraria em torno dos anatídeos).
Eu fiquei curiosa para saber do que se tratava, eles me responderam que “pathos” é uma palavra de origem grega e significaria paixão, excesso, catástrofe, passividade, sofrimento e assujeitamento.
Nesse momento pensei: “Mais uma palavra para compor o meu cabedal linguístico!”
Com pouco tempo pensei: “Mas “pathos” lembra a palavra “patologia”!”
Tenho dúvidas se a minha analise foi evidente, mas não pude deixar de relacionar o que me parecia “evidente”.
Acabei sendo induzida a relacionar paixão e doença, e inevitávelmente paixão como uma doença.
Pensei: “Se estar apaixonado é estar doente, logo isso não é bom!”
Mas a questão não se trata simplesmente de um relação maniqueísta entre o bem e o mal.
A questão é como nós nos comportamos em estado de paixão. Não faço a mínima idéia de como se deve comportar, até porque é uma questão totalmente pessoal e subjetiva.
O importante é consiliar, buscar um meio termo.
É impossível não se apaixonar, não ser afetado por algo ou alguém, me desculpem aqueles que dizem que nunca se apaixonaram, mas eu não acredito.
Sobre a questão da passividade, é inevitável não ser passivo em algum momento. Quem está apaixonado é porque foi afetado por algum objeto, o afetado sofre o estímulo externo e logose encontra passivo.
É até redundante falar sobre, mas o objetivo é deixar claro que a passividade do individuo é real.
Existem pessoas capazes de deliberar em algum momento essa escolha, de se deixar afetar. No entanto, isso não é nem bom e nem ruim “a priori”, a questão é de como tudo vai transcorrer e não depende exclusivamente de um lado da relação.
É certo que existe muitas coisas a serem acrescentadas nas nossas concepções, mas no momento quero apenas abrir margem a reflexão individual.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Desencontro


Como entender duas retas paralelas era a questão!
Retas paralelas são iguais...
Têm uma origem e um fim no infinito...
Mas nunca se encontram...
Nunca se cruzam...
Nunca formam laço...

Será que um dia ele terá aquele abraço?

Incrível ele ter se identificado assim com alguém
Mesmo vendo nela o espelho de suas ações
Mesmo assim, as ações dela eram contrárias as suas
Que em vez de aproximá-los os distanciava
A ponto de deixar nele só a lembrança
Mas que vida sem esperança...

E a saudade de tê-la se transforma na dor da ausência
Que passava a proucurar sem achar

No fim de tudo ele saberia...

Passar por isso era a sua penitência

Verdades e Certezas


Os que sonham buscam verdades
Os que estão acordados buscam certezas
De modo que não sei se sonho ou se estou acordada
Mas de vez em quando sei que me perco na madrugada

Sonhando sei que também posso velar as verdades
E brincar com os mitos que faço
Acordada às vezes tenho a certeza
Mas será que a vida é só tristeza?

Depois de tanto pensar descubro
Que é inútil ter alguma certeza
E se a verdade dói, ela é inútil também.

Viver sonhando talvez não seja bom
Mas viver de mentiras é pior
Viver acordada também cansa
Mas buscar a felicidade é melhor

Aquele menino


Recordo-me muito bem daquele menino
Tão puro e inocente
Dono de um sorriso tão contente
Tão doce que não caberia em um sorriso só
Eu sei que tive de ir e não tive tempo de me despedir
Ficarei com saudade daquelas coisas que ele não pôde me dizer por falta de tempo
Vi nele uma beleza rara, própria da sua idade
Vê-lo fingindo dormir foi engraçado
Mas na hora da minha partida o seu sono era real
Não sei se um dia poderei encontrá-lo novamente
Só sei que se não fossem algumas fagulhas a nossa amizade perduraria
Desejo que ele cresça bem
Sei que em breve ele será um grande homem
Pois já é um grande menino
E que muito tem a ensinar

Homem sem nome


Ele sabia que deveria fazer alguma coisa, sentia isso a todo instante a perturbar sua mente sempre cheia de coisa.
Ele sabia que não tinha a bela voz do taurino ou a elasticidade de um ginasta.
Não sabia tocar violão, desenhar ou contar piadas.
Não tinha para quem cozinhar ou contar suas estórias de vida ou de sonhos.
Não tinha dotes artísticos ou coisa parecida.
Sua vida era monótona como o crescimento da grama do meio fio.
Mas ele sabia que pensava e escreveu.
Mesmo que ninguém fosse ler, mesmo que fosse bobagem, mesmo que fossem apenas as suas lembranças; de desventuras ou de embriaguês nos bares da periferia.
Qualquer coisa que relembrava era capaz de se tornar algo relevante naquela tarde solitária e quente de verão de um lugar sem estações regulares.
Tudo parecia tão calmo do lado de fora da porta de sua casa, mas dentro de seu corpo havia um constante movimento: eram os hormônios, a fome, o desejo de liberdade, um pouco de álcool e saudades de um passado bem distante. Tudo misturado e indefinido.
À tarde daquele dia passou lenta como um dia em Plutão, uma tarde solitária que ele compartilhou com o tédio de ser quem ele era.
Ele escreveu porque se apenas pensasse poderia esquecer suas lembranças.
Resolveu escrever pensando que um dia alguém poderia dialogar com o seu pensamento, mesmo que ele não existisse mais para dizer o que uma frase solta significaria.