segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Homem sem nome


Ele sabia que deveria fazer alguma coisa, sentia isso a todo instante a perturbar sua mente sempre cheia de coisa.
Ele sabia que não tinha a bela voz do taurino ou a elasticidade de um ginasta.
Não sabia tocar violão, desenhar ou contar piadas.
Não tinha para quem cozinhar ou contar suas estórias de vida ou de sonhos.
Não tinha dotes artísticos ou coisa parecida.
Sua vida era monótona como o crescimento da grama do meio fio.
Mas ele sabia que pensava e escreveu.
Mesmo que ninguém fosse ler, mesmo que fosse bobagem, mesmo que fossem apenas as suas lembranças; de desventuras ou de embriaguês nos bares da periferia.
Qualquer coisa que relembrava era capaz de se tornar algo relevante naquela tarde solitária e quente de verão de um lugar sem estações regulares.
Tudo parecia tão calmo do lado de fora da porta de sua casa, mas dentro de seu corpo havia um constante movimento: eram os hormônios, a fome, o desejo de liberdade, um pouco de álcool e saudades de um passado bem distante. Tudo misturado e indefinido.
À tarde daquele dia passou lenta como um dia em Plutão, uma tarde solitária que ele compartilhou com o tédio de ser quem ele era.
Ele escreveu porque se apenas pensasse poderia esquecer suas lembranças.
Resolveu escrever pensando que um dia alguém poderia dialogar com o seu pensamento, mesmo que ele não existisse mais para dizer o que uma frase solta significaria.

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