quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Foi tarde!


Ele era um santo, como os acólitos da igreja de São Pio X. Nem gostava de álcool, nem usava as drogas que seus amigos teimavam em consumir. Gostava de fazer o bem ao próximo, tinha um ar de sorriso estampado na cara, semelhante às propagandas de creme dental. Poderia ser eu se não fosse ele. O detalhe é que dificilmente eu trabalharia para o meu próprio mal, minha potência de existir não permitiria que eu fizesse algo de nocivo contra minha pessoa. Mas ele, ele não teria essa sensibilidade na pele, ele seria incapaz de pensar no bem do outro antes do dele. Na verdade ele era um qualquer. Cabelos grisalhos, cinqüentão, aparentemente um bom partido... Muitas qualidades de longe, mas de perto um frustrado que faria questão de tornar a minha vida frustrante. Um ciumento, possessivo e desconfiado, só porque a minha pele ainda era jovem, corada e cheia de viço. Lamentaria ter que dizer que, mesmo o amando, tinha que partir. Seria incapaz de não dizer adeus se sentisse necessidades para tal. Minha alma e minha boca não hesitariam em proferir tais palavras. Depois de poucos meses, teria eu me cansado de tal rotina. Eram cinco da manhã e ele não havia retornado, nem telefonado... Eu havia perdido a confiança, sabia que ele gostava de estar ao meu lado, mas o seu respeito estava foragido, escapando pelos seus poros no suor fruto do sexo pago na periferia da cidade, do lado de algumas vagabundas, possivelmente e potencialmente infectadas por uma DST. Ele era tão sujo quanto à lama e eu fui adquirindo um nojo crescente ao seu lado. Eu sei que teria que por um fim nessa situação sem saída, sem esperança. Ainda bem que não tínhamos filhos, além de tudo, desconfiava que fosse estéreo. “Meu Deus!” Eu pensava: “aonde vim parar!” Acordei cedo no outro dia. Enxerguei e me convenci de que não valeria à pena nem mesmo uma despedida ou uma explicação. Ele havia adormecido despido na banheira, o nojo só aumentou. “Que situação!” Comecei a ter pena de mim por tamanha vergonha, nem sei por que tive essa sensação, na verdade queria que ele se danasse. Ele acabou com a minha esperança, depois de tantas tentativas de felicidade, eu o via como a última saída! Não que eu não tivesse a capacidade de encontrar alguém melhor, mas eu já estava cansada de supor que o bem pudesse vir do coração de algum homem. Então fui embora. Simplesmente, saí. Foi melhor assim, não vou sofrer por isso. Ele era tão pequeno e medíocre e eu estava me contaminado com seus vícios morais por suportar tudo. Chegou o momento que eu deixei de sofre e me questionar sobre o bem que um coração possa possuir. Não perco as esperanças totalmente, pois o meu coração ainda pôde, depois de tudo, permanecer em paz e ciente de que eu sou o meu próprio bem.

2 comentários:

Bethinha disse...

Perfeito... Perfeito... um final mais eletrizante que eu poderia imaginar seria ela assassinando ele.
Mas perfeito demais. Me pareceu tão comum, mas, tão específico sabe?
*
Coisas que a gente vê todo dia na Márcia.
*

Bethinha disse...

Detalhe... a Tal "bethinha" sou eu tá? >P
Frido!