sexta-feira, 6 de março de 2009

Ele era avarento como a maioria dos comerciantes, pois, tinha que dar valor ao dinheiro que tanto se esforçava para adquirir. Ele tinha um antiquário e lá existia de tudo: jóias, móveis velhos, prataria, coisas usadas em geral, coisas que deveriam valer mais por ter um valor sentimental, por ter uma estória talvez...
No seu escritório tinha um ralo, um ralo que fedia muito. Todos que lá chegavam eram recepcionados por sua advertência de que aquele cheiro era do ralo e não o dele.
Certo dia apareceu um cara vendendo uma caixa de música. Ele ofereceu 10 pratas naquele objeto, no entanto, o dono achou pouco. O objeto pertencia à mãe do sujeito e tocava uma musiquinha igual aos carros que vendem gás na rua. “Tá certo, te dou 15, mas para ouvir essa musiquinha você terá que esperar o carro de gás passar na sua rua!” Assim, foi que ele se despediu do dono da caixinha.
Outra vez entrou um mexicano com um objeto qualquer e que findou perguntando que cheiro era aquele. O comprador respondeu: É o ralo! Não sou eu! É o ralo. O outro falou: Mas quem usa o banheiro? A resposta foi: Eu, só eu, por quê? Então se só você usa esse banheiro o cheiro do ralo é o seu cheiro! Disse o homem saindo rápido pela porta.
Aquilo magoou profundamente Lourenço, o dono do antiquário.
Lourenço fez muitas pessoas sofrerem com as suas palavras ásperas, mas a vida não lhe foi nenhuma seda. Ele nunca teve um pai. O pai dele deve ter saído apenas uma vez com a sua mãe.
Um dia ele comprou um olho de vidro e disse para todos que era do seu pai e que este tinha perdido na II Guerra Mundial.
Outro dia apareceu um homem vendendo uma prótese japonesa, era uma perna. Ele comprou na hora e pensou: Eu já tenho um olho e a perna do meu pai. Ele deve ser triste por nunca ter me tido, mas pelo menos eu o tenho. Meu pai Frankstein.
Tempos depois e depois de ter entupido o ralo com cimento ele se enfurece e diz que as coisas em sua vida estão dando erradas porque o cheiro do ralo era o que o levava pra frente e que era o próprio Eu dele.
Lourenço, no momento que está quebrando o chão, tem a sua sala invadida por uma viciada que sempre vendia objetos para sustentar o vício. Ela entra com uma arma e atira no peito de Lourenço.
Ele morre no momento em que acredita estar se encontrando com a sua própria natureza, como o cheiro do ralo.
Lourenço morre com o olho na mão e a cara no chão do banheiro como se estivesse num ritual. Os olhos molhados e o nariz encostado no ralo. O barulho do disparo ecoa pelo banheiro se misturando com o cheiro que escapa.

3 comentários:

Frido disse...

EU adorei esse FILME. tava era precisando assistir de novo!

Solange Maia disse...

Essa tamanha realidade com que descreve a vida é fascinante...

Sempre gosto do que leio aqui...

Beijo especial,

Solange

http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

Fábio Vanzo disse...

O filme é bem legal, mas o livro é, obviamente, mais rude, grosseiro, grotesco, e deprimente.

Beijinho!